
Sábado, 19 de Janeiro do 2008
Todo depende da perspectiva. Algo que nos parece clarísimo, que ao nosso ver nom admite mais que umha interpretaçom, porém doutro ponto de vista pode parecer justo o contrário, há que sabê-lo para podermos conviver. Quando os espanhóis falam em “tolerância” referem-se a isso: há que comprender que do seu ponto de vista as cousas som diferentes a como nós as vemos.
Por ejemplo, durante o ano passado viegei muito polas prisons espanholas, em excursons curtas de menos de um mês, e depois voltara aquí, ao fim do mundo. Cada vez que voltas a Puerto passas umha noite ao módulo de ingressos, onde te cacheiam, te assustam e te revisam todas as pertenças. Numha das últimas vezes ocupárom-se desses mesteres dous carcereiros tagarelas que, depois de me obrigar a tirar toda a roupa e volta a vestir, ciscârom sobre o colchom o conteúdo das sacas, começárom a abrir todas os petos, a revisar as cartas, a palpar cada prenda de roupa. E mentres tanto, falavam comigo, com ár de superioridade e displicência, como era inevitável numha situaçom assim. “Assim que tu és galego, nom”, “e vós também nom queredes ser espanhóis?”, cousas assim. Com poucas palavras, mas eu desde a esquina tinha que responder, nom estava o forno para bolos, “queremos seguir sendo o que somos, e ponto”, e um deles, “pois nom se está assim tam mal em Espanha”. Olhei para ele, que estava a fuchicar na minha correspondência privada, olhei para o outro carcereiro, que ia amontoando os meus calcetins e calçons num canto da cama, misturando roupa limpa e suja, olhei para a cela, que é como esta, na que escrevo agora, é dizer, a mais pequena, cutre e incómoda de todas quantas conhecim nas prisons, com um retrete turco e umha grelha na janela, olhei todo o que me rodeava e o filho de puta que tentara convencer-me de que nom se está assim tam mal em Espanha, e que podia responder? “Ocorrem-se-me sítios melhores”. Aquí há que considerar duas cousas. A primeira é que com efeito nom se percebe igual o mundo do ponto de vista do prisioneiro que do carcereiro. Vale. E vale que os carcereiros tenhem tendência a nom comprender que nós nom respeitemos os seus valores, que nom aspiremos ás mêsmas metas que eles, que nos sublevem situaçons que para eles som rotinárias. Está bem, também aos presos nos custa pormo-nos no seu lugar. Nom queremos mas de querermos, custaria-nos. Ora bem, o espantoso do asunto nom e isso, ou seja, nom e que fulano me dixesse que se esta bem em Espanha sem pensar na situaçom na que estava eu em Espanha. Já digo que isso até certo ponto -neste caso é gritante, mas tanto faz- é comum. O incrível do seu comentário é que o pronunciasse…desde o seu próprio ponto de vista! Vives num país, numha sociedade em que o teu papel consiste em despir pessoas, remexer nos seus objectos e roupas íntimas, ameaçá-las e nom raro bater nelas, e opinas que “nom se esta assim tam mal”! Que classe de depravado se adapta assim, alegre e despreocupado a tal situaçom? E bem, assim correm as cousas, na prisom e fora. Os que vivem cobertos de merda, obrigados a comportar-se como psicópatas com os demais ou a envenenar o ár, a terra e a água, por um salário com o que pagar mais merda na que revolcar-se, olham para nós incrédulos e paternalmente aleccionam-nos, “nom se esta tam mal câ”. Nom lhes cabe na cabeça que apartemos a olhada, indiferentes da inmundícia que eles chegarom a desejar, nem que busquemos saídas, fendas polas que escapar a um lugar no que se poda respirar, por ejemplo umha naçom, ou no mínimo onde um poda recusar a ordem dum estranho quando te diz que te dispas numha cela nojenta do fim do mundo. Pronto, pois está bem: tam-pouco nós temos que convencê-los a eles. Possívelmente nom tenhamos que convencer a ninguém, mas muito menos a eles. Com que só nos deixassem em paz…Até entom nom se trata de raciocinar com eles, mas de fazer que nos respeitem. Sabado, 12 de Janeiro do 2008
Dende Ceivar actualiçamos este blogue com duas novas cartas do preso independentista Ugio Caamanho, sequestrado na prisom espanhola de Puerto de Santa Maria...
Passa mais dum ano que nom escrevo. Nas prisons nom acontecem muitas cousas, as essenciais vam por dentro e os dias, quando um os recolhe, os coloca sobre a mesa e os examina, parecem lánguidos, amorfos. Perante á carência de “eventos”, o mais concreto que se pode assinalar para marcar a passagem do tempo som bagatelas: esta semana fixem desporto três dias, quarta-feira escrevim umha carta, ontem vim tal filme. Olhas para o dia e nom o distingues do anterior, de qualquer um da semana passada, de um mês atrás, do ano que se foi, e essa é a sensaçom de interrupçom do tempo: o relógio parou e tu ficache atrapado entre as suas agulhas, num presente contínuo que fecha as quatro paredes do módulo com o último ferrolho. Nom podes sair deste espaço, nom podes sair deste tempo. Nom é certo, como sensaçom sim: nom há nada que fazer, ás vezes atrapa-te. Nom me queixo, essa é a sensaçom da prisom –e do exilio, acrescentaria o outro-, eu estou prisioneiro, e nom escapo á minha realidade, excepto que escape efectivamente. Por enquanto conheço este mundo e as suas sensaçons, e nom me creio infeliz por isso. Mas nom é certo e está bem sabê-lo. Porque agora que me sento a escrever nesta página após mais dum ano de dias lánguidos e amorfos, tomo distância das minhas rotinas, repasso os meses do almanaque já caducado, e vejo- me incapaz de resumir tanta vaguidade numhas poucas linhas: de vazio, de aborrecido, nada de nada. E porém nom me estenderei com o relato. É importante realizar certos gestos, afrontar algumhas situaçons, agir no momento precisso; o eco desses gestos, situaçons e acçons, a rebotar nas diversas instâncias do espectáculo, como a justiça ou os meios de comunicaçom, nom em tanto, importam muito menos. Cumpre viver sem mediaçons, por dizê-lo assim. E já sei que nom me explico. Um funcionário de Cáceres com o que tivem umha relaçom estupenda, ao voltar a essa cárcere em Novembro: “Que o fixeche, pola propaganda?”. Homem, nom me fodas. Em momentos assim dá vontade de renunciar á palavra, como os monges silentes, como umha cura perante a conversom de toda realidade na sua imagem, no seu discurso. Tentar fugar-se da prisom para fazer propaganda para fazer propaganda na que apareces fugando-te da prisom… Vale, já sei como vai isto. Mas eu nom jogo. A propósito, este funcionário lê este blogue. Um dia apontei que escreveria algo sobre os funcionários amáveis, nom é verdade? As contradiçons que isso cria: há exactamente um ano, de manhám emprestava livros a este homem e conversava com ele de política e de tarde serrava as grades do meu charolo e trançava os lençóis da cama. Umha época fantástica. E bem. Tenho trabalho que fazer aí fora. De verdade que tenho muito que fazer. E vim que podia sair porque a prisom de Cáceres parece de joguete, antes foi um reformatório, assim que cortei as barras e umha noite descolguei-me pola janela até ao pátio. Ia saltar o muro mas a corda nom aguantou o meu peso e fiquei atrapado no pátio. Lástima, porque o plano era bom, eu creio que hoje podia andar liando-a por aí se nom fosse a corda. Bom, tanto faz. A prisom, zangada porque nom preveu o intento nem foi quem de detectá-lo , puniu-me com um sumário polo que se acrescenta em quatro meses a minha estáncia nestas casas, e com a aplicaçom do primeiro grau, isto é, máximo controlo e mínimos directos, tranferíndo-me ao mítico penal de Puerto de Santa Maria, que, para os pouco familiarizados com as questons carcerárias, vem ser o equivalente espanhol a Alcatraz. Ao entrar em Soto del Real, um basco assustáva-me com isso: “Tu vás acabar em Puerto I”, como se fosse o último inferno. Esse basco está aquí agora comigo, mas isto nom é nengum inferno. O dia-a-dia nom traz mais disgustos que o de Cáceres, e até menos, para mim, pola boa companhia. Antes estava só num módulo inçado de violadores, e agora convivo com umha dúzia de bascos, o que é um autêntico luxo. Giana conheceu também dos rigores do artigo 10, que é como se chama o primeiro grau no caso dos presos preventivos, mas sem mudar de prisom, continua em Brieva e sem nengum motivo concreto, ao contrário que eu. Como ela também nom escreve nesta página dende há tempo, direi que continua igual de bem que sempre, de facto melhor porque descobreu umha habilidade extraordinária para a pintura e anda enfrascada nos seus experimentos artísticos, que já conheceredes. O pior que aconteceu deste lado do muro no ano passado foi que duplicamos a nossa presença: Sánti e José Manuel, dous rapazes santiagueses apanhados pola guarda civil, ingressârom há uns dias em Meco, no módulo de menores, e estám conhecendo as áreas mais silvestres dos presídios espanhóis. Polo visto os módulos de menores sim que parecem como os filmes, ambientes reptilianos e violentos onde, ao menos os dias nunca som lánguidos nem amorfos. Nom compartilham módulo com nengum outro político, mas de momento estám eles dous juntos, que já é algumha cousa. Á hora de partir-se a cara com os Latin King, por ejemplo, convém que alguem te cubra as costas. Houvo muitas outras batalhas, mas ficam para outra ocasiom. Basta saber que algumhas se ganhârom outras se perdêrom e, as esenciais, continuam aí, sem decidir. Como Giana e eu que a dous anos e meio da detençom seguimos “presos por se acaso”, isso sim, agora cumha petiçom fiscal de 21 a 18 anos. Por “homicídio de sucursal bancária” ou “caixacídio”, algo do género. Os familiares da vítima –caixinhas e caixons- reclamam um castigo exemplar, e todos nos solidarizamos com elas. Que país, Deus bendito. Agora vou-me mas nom tardo nada. Tenho umhas cousas que dizer e nom penso calar. Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2005
Esta semana concedérom-nos duas chamadas mais (a parte das cinco que podemos fazer semanalmente) e está todo o módulo revolucionado. Há umhas filas e umhas brigas no telefone para poder ligar que é insuportável. Na vez dum favor, figérom-nos mais umha sacanagem: agora para fazer umha chamada tenho que estar aguardando mínimo duas horas e meia para aceder ao telefone para que logo muitas vezes nom me colham. Dam vontades de liar-te a hóstias com todo a gente, nom pola gente de fora que nom pode andar todo o dia pendente do telemóvel, mas pola que fica cá. Para poder volver a entrar tes que gritar e por-te histérica. Depois, entre que se te cola gente e umha cousa e outra ... Insuportável.
Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2005
Há dous dias figem cinco meses do meu ingresso em prisom. Fai-se-me raro o rápido que se passa o tempo cá. Há nada ainda estava na rua. Mas está bem que seja assim, cada nada cumpro um mês novo e logo deixarei de contar os meses para contar os anos até a fim. Antes ou depois sairemos e enquanto podamos ajudar no possível desde cá dentro, assim será.
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2005
Afinal, o 24 à noite tivemos ceia especial. Por suposto umhas filas de impressom para entrar no comedor e depois dérom-nos cochinilho, um consomé, umha salada e salmom reboçado que estava muito bom e um copinho de sidra. De sobremesa umha caixinha com diferentes tipos de torrons, duro, brando, polvorom, de chocolate ou maçapanzinho. Incrível, mas o copinho de sidra subiu-se-me à cabeça: tenho tam limpo o corpo que um pouco de "sumo de maçá" mo deixa contente. Quando saia vou sarr mais barata nas festas do que umha criancinha, ha, ha ... Bom, polo menos figemos algo diferente.
Sábado, 24 de Dezembro de 2005
Hoje sinto-me um pouco rara. Será porque é Natal e levo toda a vida passando estas datas com a família. Imagino a minha mae na cozinha toda estupenda fazendo a ceia, o toalha com pais natal e motivos de Natal, a chaminé posta, as lambetadas... e meu irmao e mais eu pesticando às agachadas as cousas que vam saindo do lume enquanto falamos, brincando entre as duas. Depois a ceia com @s ti@s, baixando o volume da televisom quando fala o rei, para que nom interrompa e moleste, e depois da ceia a tomar algo com @s colegas. Este ano vai ser muito diferente, inclusivamente ficarei durmida às 23:00, cousa incrível (nem de menina me deitava tam cedo no 24 de Dezembro). De facto chamei a minha mae hoje pola tarde para desejar-lhe um bom Natal. Estava com as minhas tias, umha delas fazia muito tempo que nom falava com ela e pujo-se muito contente e eu também, claro. Imagino que será muito estranho para ela ter umha sobrinha em prisom, e sobretudo por motivos políticos, mas penso que aos poucos o vam assumindo. Foi umha pequena fórmula para ter umha tarde familiar (menos dá umha pedra ... ).
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005
Hoje estou que trino. Resulta que nos concedérom a possibilidade de mandar 25 postais estritamente de "parabenizaçom de Natal" que nom computavam nas duas cartas semanais. Pois bem, lá me lio eu a fazer postais como umha imbecil, a desenhar e procurar poemas para que ficassem bem bonitinhos e o resto. Bem, pois envio e devolvem-mos dizendo que nom tenhem temática de Natal. O que punha em todos, para que vos situedes, era "Bom Natal, feliz Cabo d'Ano e brindade com cava catalám". Pois isso nom é temática de Natal, segundo o interventor-censor. Total, finalmente falamos com o Director e diz-nos que tenhem que ir em espanhol para que o interventor entenda o que é que pom, senom tenhem que ir a Madrid como as cartas normais.
Nom vejas: é tam difícil de entender Bom Natal, feliz Cabo d'Ano e brindade com cava catalam ... Finalmente assim fiquei, com todos os postais feitos na mao e duas semanas de choio deitadas no Iixo. 4 de Novembro de 2006, Domingo
(...)
Há gente que nom se entende se percebe e está espantada ante o desdém com que nos últimos tempos tratamos da organizaçom política e também da sindical, que sem os dous buques insígnia da luita revolucionária ao estilo antigo. E se bem nos factos nom se verificam mais que aspectos positivos destas renúncias, parece que a gente órfã sem estes instrumentos, por muito que à hora da verdade nunca saiba como empregá-los. Quando alguém me expom estas hesitaçons a argumentaçom mais solicitada é a globalidade: para coagular as micro-identidades agromadas nos nodos da rede social compre umha força política. O que se passa é que nessa formulaçom vam contidas duas asseveraçons, umha certa e outra evidentemente falsa, e a segunda poderia esconder-se na primeira para engabelar-nos: é certo que um moviemento como o que estamos a construir coxeia de elementos globalizadores que conformem um sujeito histórico nacional, mas nom o é em absoluto que um partido político poda cumprir essa funçom. Talvez sirva para outra cousa, mas desde logo na Galiza, no independentismo, o partido nunca é um elemento de uniom mas de divisom. Este assunto da globalidade nom é, contudo, do que te queria falar hoje. Intriga-me é a questom do partido representativo. Fixa-te que na ideia de partido (ou força política, tanto faz) vam ligados dous significados, duas funçons totalmente separáveis que nuns casos guardam equilíbrio e noutros nom; o partido pode consistir numha organizaçom para a planificaçom e multiplicaçom do trabalho dos activistas, que é realmente o papel de todas as agrupaçons conspirativas e especialmente os leninistas (já agora, no caso russo o papel globalizador nom o desempenhava o partido mas o periódico Iskra), ou pode arrogar-se a representaçom dum segmento do espectro político, dum país, ou dumha classe social. Em geram combinam-se os dous jogos, vasculando para o primeiro no caso dos partidos mais implicados nas movimentaçons sociais e para o segundo nos mais institucionalizados. O problema da representaçom do independentismo é que na maior parte dos casos nem sequer deixa representar. Assim que se tu vás de listo e te proclamas porta-voz, em geral nom aguantas nessa posiçom quatro dias, ou acumulas tal despreço que nom podes nem ir aos bares. Ou pior ainda, aparecem outros listos que te dizem que tu nom os representas e começais a brigar por esse estranho e desnecessário título de “representante do MLNG”. Mas, afinal, que necessidade temos nós de representaçom? Para que nos serve, na prática? Sabemos para que serve nos sistemas pluripartidistas de mercado: para sequestrar o direito à participaçom colectiva, de maneira que a gente pense que já cumpre os seus compromissos com a vida pública com o voto quadrianual, como os espectadores dum partido de futebol julgam ter gozado do desporto após passar duas horas vendo como jogam vinte e dous desconhecidos. Nós a quem queremos representar? Que ganhamos representando ninguém? Cumpre-nos ser, nom apresentar. Que cresça a participaçom, nom a representaçom. Nom é que haja que apostar polo abstencionismo: as instituiçons espanholas baseiam-se na representaçom, mas ainda podemos conceber algumhas formas de intervençom eleitoral displicentes com dinâmica representativa. Basta com que umha parte nom se arrogue a funçom do todo, e menos de forma fechada, estável e unívoca. Isto conduziria a um processo permanentemente constitutivo cuja principal características estribaria justo nisso: sempre se está começando de novo, para bem e para mal. Acho que esta noçom do permanente constitutivo. (...) 29 de Outubro de 2006, Domingo(...) Se o essencial for este último motivo viria a propósito da crítica da cultura: mercantiliza-se tanto a literatura e o pensamento que só quando vêm envoltos em papel de presente é que os identificamos como tais, e destarte descuidar-nos todas as manifestaçons mais singelas que, por isto mesmo, estám ao alcanço de todo e que tradicionalmete praticamos a diário. Por exemplo, contar contos, ou relatar com graça algo que te aconteceu esta manhám, ou escrever umha carta, ou tentar convencer alguém dalgum argumento. É sempre comunicaçom e com efeito nom se trata de fazer virtuosismo verbal, como nas obras de ficçom, senom que se empregam as técnicas literárias como ferramentas... ou nom, porque também às vezes se fala por falar, e se escreve sem nada particular que transmitir, por puro gosto. Seja como seja nom se trata, e isto é que é o fundamental, dum autor conhecido contar cousas e um público anónimo e invisível. Aqui há caras, nomes próprios, informaçom biográfica compartilhada. Há pessoas dos dous lados da linha. Porquê nom? Mais que pular por um sistema literário comercial galego poderíamos propor-nos dinamitar a noçom de literatura, e nesse caso, sem denigrar o romance, o poema, a obra dramática e o ensaio, cumpriria elevar de patamar os géneros informais, pessoais. A conversa, por exemplo, que foi umha arte muito cuidada outrora e hoje dá pena, com tam magro vocabulário, tantos lugares comuns e tam poucas dotes teatrais e retóricas. Ou a faculdade de contar piadas, que também é umha arte bem misteriosa. A ideia de dirigir-se nom àquelas pessoas que queres transmitir o que vás dizer mas a um público anónimo poderia proceder da consideraçom da tua expressom como umha mercadoria, porque entom fazes é coloca-la no mercado e vendê-la (nom causar o riso ou a reflexom nos teus amigos, vizinhos, companheiros), ou entom da formaçom do homem abstracto na modernidade, é dizer, do indivíduo, processo mais amplo que o primeiro mas sem dúvida conectado a ele casualmente. As cousas como estám, chegamos ao extremismo social de se escreverem as maiores e mais complexas arquitecturas literárias e ensaísticas enquanto a maioria da populaçom se vê incapaz de contar como lhe foi esse dia no choio sem cair na indigência linguística, sem sequer fazer entender o que gostaria de comunicar, e desde logo sem divertir nem ensinar nada. E com umha carência de ideias, opinions fundamentadas e sistemas de pensamento coerentes que se faz árduo estabelecer controvérsias. Ou inútil até. Com estas consideraçons um vai perdendo (...) 22 de Outubro de 2006, Domingo
A espontaneidade dos políticos por vezes exprime-se com maior eloquência do que os seus informes. Parece ser que os leoneses denunciárom o uso do mapa da Galiza editado por NÓS-UP, que compreende os territórios orientais até o Návia, o Berzo e Seabra, nalgumhas escolas. A conselheira de educaçom do bipartito, solidária com os leoneses e escandalizada polos factos, tranquilizou-nos afiançando-lhes que se investigará o caso e se retirará o mapa, que obviamente é “ilegal”.
Esta mania de declarar foragidas todas aquelas cousas contrárias ás próprias opinions, a sério, tinha que chegar até aqui? É tremendo que Espanha ilegalize partidos políticos, associaçons juvenis, centros sociais, até periódicos. Mas... um mapa? Como se lhe ocorre a alguém ilegalizar um mapa? Estará pensando esta “socialista” numha Lei de Mapas a semelhança da Lei de Partidos Políticos? E sendo assim, que supostos de ilegalizaçom lhe passarám pola cabeça? Já o estou vendo: “ilegalizado o mapa integral da Galiza por nom condenar o terrorismo”. Ouça, senhor juiz, que eu sou só um mapa. “Já mas, condena o terrorismo ou nom?” Porquê pensarám que têm que meter mão em todo o que faça a gente? No seu afám regulamentarista, no seu intento de submeter toda a vida social ao controlo de ordenanças, leis orgânicas, regulamentos e directivas, ao final acabam crendo-se com compentências sobre cada cousa que a sociedade faz por livre, mesmo as mais inócuas e inofensivas, mesmo caindo no ridículo. Assim que o nosso mapa é ilegal, manda caralho. Pois que o metam preso também, como aquela história do sargento que castigou umha cadeira com duas noites de arresto. Que país! 15 de Outubro de 2006, Domingo
Som trapaceiros os dilemas desse género, tam caros polos entusiastas deste modo de vida rapaz, insensato e suicida. Dizem: “as crescentes necessidades energéticas há que satisfazê-las bem com combustíveis fósseis, bem com energia nuclear”. Ou: “ o crescimento urbano pode-se conduzir horizontal ou verticalmente”. Ou: “ a crescente necessidade de transporte cumpre solucioná-la por meio do carro privado ou do comboio”.
E porquê? Porquê tem que incrementar-se o consumo de energia? Porquê têm de estender-se as nossas cidades se nom aumenta a nossa populaçom? Porquê urbanizar e viver de maneira que tenhamos que gastar cada vez mais tempo em deslocamento? Nestes termos os dilemas ou nom têm soluçom ou têm efectivamente a que convêm aos poderosos. Entre o gaseamento por CO2 do petróleo e o carvom e os resíduos radioactivos do urânio talvez compense o segundo. Se em Vigo nom houver habitaçom para todos os vigueses, quiçá o melhor seria construir para o céu em lugar de invadir a periferia, como bem dizem o BNG e o PP. Mas nom se justifica esta aceitaçom acrítica dumhas premissas que nos condenam à racionalidade estúpida e alienante do “progresso”. 8 de Ouubro de 2006, Domingo
Anda rondando o debate nuclear com um ar conspirativo que já prefigura o seu resultado. Tanta unanimidade de argumentos e tanta concertaçom nos golpes de efeito entre personagens de toda laia em Europa fam pensar certamente numha campanha orquestada polos que sim merecem o nome de poderes fácticos, que neste ponto mandam de verdade. O próprio governo espanhol, comprometido programaticamente com a desnuclearizaçom vagarosa, cuida-se cada vez menos de ocultar os seus planos para a próxima legislatura, confiando assim e todo em que as intervençons propagandistas generalizadas, que incluem progres da família de PRISA e até alegados ecologistas, convençam à populaçom de que o desenvolvimento sustentável equivale a fisom do átomo. Os galegos já paramos umha vez um projecto de central nuclear em Jove; mais nos vale irmo-nos preparando, porque todo anuncia que o segundo intento poderá nom demorar muito.
1 de Outubro de 2006, Domingo
(...)
Esta semana chegou o carregamento de presos ao módulo. Uns vinte e tal, ou trinta, e todos vinham de Madrid. Nom há nenhum galego entre eles, de facto todo é negativo da sua chegada: agora custa mais trabalho telefonar, fazer fila para as comidas, conseguir mesa e cadeira na sala, e além disso subiu muito o nível de decibéis que há que suportar. Passamos de oitenta e tal a mais de cento dez, refiro-me a presos, nom a decibéis, assim que o que era um módulo vai-se parecendo mais e mais com os de Soto ou Navalcarnero. Exceptuando os presos de destino e algum chivato notório ficamos pouquinhos com cela individual. Eu sou um deles, mas nom te estranhes se para a semana te escrevo desde isolamento contando-te que me quisérom meter um intruso, e já tens outra vez a roda a girar. Nom seria assim tam grave: livraria-me das horas neste pátio e compartilharia módulo com os bascos. Os presos novos som todos extracomunitários: bastante pretos, muitos sul-americanos, três ou quatro muçulmanos e um coreano que parece talmente Kim Jon Il, coitadinho. Devem estar caindo traficantes a maos cheias em Barajas, porque polos vistos nos cárceres de Madrid já nom cabe nem um pigmeu. Espanha tem mesmo um problema de saturaçom penitenciária. (...) 17 de Setembro de 2006, Domingo
(...)
Deixar de fumar custou-me menos que aprender a negar um cigarro. Existe um acordo quase sagrado dos fumadores cuja violaçom sempre me pareceu que arruinava umha das poucas solidariedades efectivas que duram: a que te permite pedir tabaco a um desconhecido sem passar por esmolante. Nom te parece reconfortante, nom já como fumadora, mas como comunista? Desconheço se é culpa do sistema penitenciário, dos carcereiros ou dos presos comuns, mas no xadrez privam-nos até disso, até da possibilidade de continuar sendo boas pessoas. Os primeiros meses livrei umha batalha interior entre o sentido comum, que me alertava contra qualquer generosidade com presos comuns, e o velho código, a velha forma de ser. É verdade que busquei um ponto de equilíbrio, e é verdade que fracassei miseravelmete. Umha companheira diz que na prisom conheces-te mais a ti mesmo, as tuas pulsons e os teus limites. Hoje sinto-me mais inclinado a crer que nom te conheces tanto quanto te transformas, e isto último em muito alto grau e nom necessariamente no melhor dos sentidos. Até acabarmos chalados ou convertidos em animais talegueiros resta-nos porém um longo caminho empedrado por toda a série das cousas boas que este contexto provê. Para o além, que fica distante, haveremos de seguir o conselho do Renato Curcio e viver o cárcere “dumha maneira rocosa”, com a dureza e impassibilidade dos minerais. O humano; a se resistir, será o que vai bem envolto, protegido no âmago. (...) 10 de Setembro de 2006, Domingo
Desde fora tende-se a pensar que no xadrez sobra o tempo, e um imagina-se aproveitando para estudar carreiras, escrever muito, ler bibliotecas inteiras e até elaborar artesanias, mas depois resulta que se chega aqui e começam a arrojar-te dum lado ao outro todo o santo dia, de maneira que a tua ocupaçom principal consiste em obedecer. Entra na cela, e tu entras. Sai da cela, e tu sais. Ao pátio, ao comedor, passe pola guarita, forme para reconto.
Levo quase cinco meses nesta prisom e nom tive nenhum problema sério com a direcçom, o qual me permitiu atingir um certo nível de estabilidade e organizaçom com o que emprego melhor o tempo e descontraio um pouco da tensom de Navalcarnero, o isolamento, os partes, os plantes e demais. Está bem. A contrapartida é que nom há nem um gesto rotundo de desobediência em todo este tempo, e isso é sao nem muito gratificante. Ah! Nas situaçons de dominaçom a resistência nem apenas enobrece o espírito: ademais proporciona a mais limpa e intensa das satisfaçons! Acordo-me quando começávamos a pintar murais em valados abandonados de Santiago. Às vezes vinha a polícia, identificavam-nos, mandava-nos marchar e nós íamo-nos embora e voltávamos à noite. Passados uns meses estávamos com outro mural, penso que em Santa Clara, chegou a Polícia, identificou-nos e mandou-nos marchar. - Pois nom nos vamos —disse alguém. Tanto o resto de nós quanto os polícias olhamos para ele estranhandos, como ante um erro do guiom. E ele também estranhado, como se acabasse de descobrir algo por surpressa. - Tedes que ir-vos embora—asseguravam os polícias. - Que nom, que nom- dizia ele, sorrindo polo que se lhe ocorrera. E no nos fomos. Pegamos nos pincéis e acabamos o mural ante a olhada estupefacta de dous municipais pouco afeitos à insuborninaçom, que ficárom de espectadores a hora que nos levou acabar o trabalho. Apagárom-no aos dous dias, mas a liçom que apreendemos dessa vez valeu mil vezes a quantia da multa (que, já postos a desobedecer, nom abonamos). Ademais, começámos a experimentar o inigualável prazer que em certas circunstâncias proporciona a palavra “Nom”. E levo cinco meses sem pronunciá-la...
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